
“Os Médicos de Família desempenham um papel central na promoção da saúde sexual”
A abordagem da sexualidade na MGF é ainda algo de invulgar em muitas unidades e locais do país, já que se trata de um tema que os utentes raramente elegem como motivo de consulta e que, de certa forma, encaram ainda como tabu na relação com o seu médico, ou que não definem como prioridade no que respeita à sua saúde e bem-estar. Por outro lado, muitos dos colegas não têm tido a formação adequada para intervir nesta área, seja na dimensão pré-graduada, seja nas vertentes pós-graduada e contínua.
Daí a enorme relevância de uma sessão como a que se realizará no próximo Encontro Nacional, em Tróia, intitulada precisamente «Abordagem da sexualidade na consulta de MGF», agendada para o dia 27 de março, pelas 16h15, moderada por Nina Monteiro (membro da Direção Nacional da APMGF e da Comissão Organizadora) e com participação de Andreia Rodrigues Silva – médica de família no Instituto CUF Porto, sexóloga no Centro Integrado de Saúde Sexual do Porto (CISS Porto) e membro da comissão coordenadora do Grupo de Estudos da Sexualidade (GESEX) da APMGF – e de Ana Filipa Vilaça – médica de família na USF Saúde Oeste (ULS Braga), especialista integrada na Consulta de Medicina Sexual da ULS Braga e membro da comissão coordenadora do GESEX. Numa curta entrevista, as duas colegas do GESEX lançam as primeiras pistas para um debate que será, com toda a certeza, um dos mais interessantes e enriquecedores do 42º Encontro Nacional!
Dispomos de algum tipo de estudo, auscultação ou dados provenientes de registos a nível nacional que nos dê uma noção sobre que percentagem de profissionais aborda matérias de sexualidade na consulta de MGF?
Andreia Rodrigues Silva e Ana Filipa Vilaça – Em Portugal, os dados sobre a abordagem da sexualidade na consulta de Medicina Geral e Familiar (MGF) ainda são escassos. O Portuguese SEXOS Study (Alarcão et al., 2012) é um dos poucos estudos nacionais que procuraram avaliar o conhecimento, atitudes e práticas dos Médicos de Família (MF) na abordagem das disfunções sexuais. O estudo demonstrou que a maioria dos MF não discute regularmente a sexualidade com os seus utentes, sendo as principais barreiras a falta de tempo na consulta, a perceção de formação insuficiente e a ausência de materiais de apoio para integrar este tema na prática clínica. Além disso, mais de 50% dos médicos inquiridos consideram que a sua formação académica não os preparou adequadamente para lidar com disfunções sexuais, reforçando a necessidade de mais formação específica nesta área. No entanto, é importante reconhecer as suas limitações: trata-se de um estudo realizado apenas na região de Lisboa, com uma amostra reduzida de 50 médicos, pelo que não é representativo da realidade nacional. Além disso, deu-se maior enfoque à disfunção sexual masculina. Ainda assim, os resultados fornecem alguns insights relevantes.
Apesar da relevância destes dados, é essencial que se realizem estudos mais abrangentes e representativos, de forma a caracterizar melhor a realidade da abordagem da sexualidade nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) e a identificar estratégias para melhorar a capacitação dos profissionais de saúde nesta área. O GESEX tem estado atento a estas necessidades e, periodicamente, contribui para a formação dos profissionais de saúde, promovendo ações formativas que capacitam os Médicos de Família para integrar a saúde sexual na sua prática clínica.
Em que tipo de intervenções específicas pode o MF, com a devida formação, ajudar o utente em matérias de sexualidade sem ter de recorrer à referenciação?
Os MF desempenham um papel central na promoção da saúde sexual e na abordagem inicial das disfunções sexuais, possibilitando uma intervenção precoce e integrada. No entanto, tal como evidenciado pelo Portuguese SEXOS Study, a falta de tempo na consulta e a ampla abrangência da prática dos MF dificultam uma abordagem sistemática e aprofundada da saúde sexual, comprometendo a efetividade da intervenção e deixando muitas destas questões por abordar.
A saúde sexual é indissociável da saúde global e da medicina preventiva, influenciando múltiplos determinantes da saúde. Está diretamente associada à morbilidade e mortalidade das IST, à qualidade de vida dos utentes e ao impacto das disfunções sexuais no bem-estar psicológico e relacional. Além disso, pode ser um preditor de risco de doença orgânica ou mental, manifestar-se como um efeito adverso de fármacos e tratamentos, tornando essencial que seja abordada de forma estruturada e individualizada.
Dada esta complexidade, mesmo com formação adequada, que é sempre uma mais-valia, é previsível que o futuro passe pela implementação transversal de consultas de Sexologia/Medicina Sexual nos CSP. Esta solução representa um caminho estruturado e muito provavelmente custo-efetivo, permitindo um acompanhamento especializado dos utentes com problemas sexuais. Se estas consultas existissem, grande parte das queixas sexuais poderia ser resolvida nos CSP, evitando referenciações desnecessárias para os cuidados de saúde secundários, reduzindo a sobrecarga hospitalar e garantindo uma resposta mais célere e acessível para os utentes.
Quando a referenciação se torna realmente necessária, que vias estão à disposição da generalidade dos MF e utentes?
A referenciação para cuidados especializados deve ser ponderada quando a complexidade do caso ultrapassa a capacidade de intervenção no âmbito da Medicina Geral e Familiar, seja pela necessidade de uma avaliação mais diferenciada, pela falta de resposta terapêutica à abordagem inicial ou pela presença de fatores clínicos que exijam um seguimento mais especializado.
Felizmente, e embora ainda de forma muito residual, já vão existindo algumas Consultas de Sexologia/Medicina Sexual nos CSP. Estas consultas especializadas, quando disponíveis, representam a resposta ideal para a maioria das queixas sexuais, permitindo um acompanhamento mais célere, acessível, consistente e otimizado, evitando referenciações desnecessárias para os cuidados secundários.
Relativamente às vias de referenciação disponíveis, há uma grande assimetria e disparidade a nível nacional, não existindo uma resposta uniforme para os utentes. Na prática, são as especialidades de Urologia, Ginecologia e Psiquiatria a nível hospitalar que mais frequentemente assumem o seguimento destes casos. Sempre que clinicamente justificado, este acompanhamento pode e deve ser feito em colaboração estreita com a Endocrinologia, Medicina Física e de Reabilitação, Infecciologia e Psicologia, garantindo uma abordagem multidisciplinar ajustada às necessidades individuais de cada utente.